terça-feira, 15 de setembro de 2020

Cientistas encontram possíveis indícios de vida em Vênus

Poderia haver vida flutuando na atmosfera de Vênus? Embora o vizinho planetário da Terra tenha uma superfície considerada extrema demais para qualquer forma de vida conhecida, a atmosfera superior de Vênus pode ser suficientemente amena para minúsculos micróbios no ar.

Esta perspectiva geralmente desfavorecida teve uma reviravolta inesperada ontem com o anúncio da descoberta da fosfina venusiana. A fosfina química (PH³) é considerada um biomarcador porque parece muito difícil de criar a partir de processos químicos rotineiros que ocorrem em ou ao redor de um mundo rochoso como Vênus - mas sabe-se que é criada pela vida microbiana na Terra.

No estudo publicado na revista Nature Astronomy, os cientistas afirmam que a quantidade de fosfina em Vênus é 10.000 vezes maior do que poderia ser produzido por métodos não biológicos. Eles fizeram uma simulação de processos que poderiam gerar fosfina no planeta sem a necessidade de micróbios venusianos, entre eles o impacto de raios, a fricção tectônica e a queda de meteoritos. E concluíram que todos esses processos são muito menos prováveis para a produção do gás do que a presença de micróbios nas nuvens de Vênus.

O primeiro indício da presença do composto foi detectada em 2018 com o telescópio James Clerk Maxwell, situado a mais de 4.000 metros de altura sobre um vulcão em Mauna Kea, no Hawai. Esse radiotelescópio capta as ondas emitidas pelos compostos químicos à medida que giram ao redor de um planeta. A longitude da onda dos sinais de rádio emitidos permite identificar o composto em questão. Mas a detecção de fosfina não foi conclusiva. Um ano depois, os astrônomos usaram o ALMA, outro radiotelescópio muito mais potente localizado no deserto de Atacama (Chile). O sinal de fosfina era muito mais claro. Mas só foi captada uma das linhas de emissão de radiação das muitas que esse composto pode emitir. ''Exatamente a que tem uma onda com longitude de 1,1 milímetro'', disse em entrevista Jane Greaves, astrônoma da Universidade de Cardiff e coautora do estudo. A cientista explica que teve a ideia de procurar fosfina em Vênus de forma independente em 2016. Quando sua equipe encontrou o primeiro sinal em 2017, ela entrou em contato com a astrônoma Clara Sousa-Silva, do Instituto Tecnológico de Massachusetts, que havia concentrado sua tese na detecção de fosfina como biomarcador. O desafio agora é encontrar mais provas de sua presença em Vênus. “Existem outras duas linhas que poderiam ser captadas da Terra, mas parece que não são capazes de atravessar a atmosfera terrestre”, ela afirma. Para vê-las, seria preciso um telescópio espacial


A imagem apresentada de Vênus e suas nuvens espessas foi tirada em duas faixas de luz ultravioleta pela Akatsuki Venus-orbing, um satélite robótico japonês que orbita o mundo envolto por nuvens desde 2015. A descoberta de fosfina, se confirmada, pode detonar renovado interesse em procurar outras indicações de vida flutuando alto na atmosfera do segundo planeta de nosso Sistema Solar, saindo do Sol.


      Fosfina descoberta na atmosfera de Vênus.
       Crédito da imagem: ISAS, JAXA, Akatsuki.